Sexta-feira, Maio 23, 2008
“Da Humana Condição”Novo Livro de Poemas de José-Augusto de Carvalho, de Portugal
“É na regularidade da paisagem,
e, por extensão, da descrição poética
dela, que nos deparamos com o inusitado
que quebra a expectativa e faz peculiar a
poética (...) – Ademir Demarchi – Escritor e
Editor da Revista Babel
Além da belíssima apresentação gráfico-estética da edição (Edium Editores, Portugal, Estúdios da Edium Editores, Março 2008), o livro de poesia “Da Humana Condição” de José-Augusto de Carvalho, de Portugal, é uma nova excelente coletânea de poemas novos, de sua mais recente safra como sempre fora de série. Janelas – tábuas de esmeraldas? – de águas e lodos, de apontamentos e desapontamentos, da própria humana condição revisitada com olhares poéticos lustrosos (para o bem e para o mal), registrando verbos, lavas, larvas, perdições, análises em rotas letrais próprias, sensíveis. Tristemente sensíveis. A esperança já não se renova a cada dia, ou a esperança é a inteligência da vida?. Ou um experiente olhar afinado, como o do autor poeta, depurando a realidade, é também olhador de tudo de ruim e pressente para onde caminha a humanidade, em sua condição de caos anunciado, caos urbano, arrebentações de toda ordem? Ler e refletir sobre.
Pinturas literais de seu tempo se afinando, na medida do possível com os olhares severos fazendo releituras, tocando destemperos, fermentações, tristezas, utopias. Xavier Zarco (Coimbra), muito bem o define: “Poemas no seu esplendor (...) Não podemos manter o olhar cerrado (...) A condição humana se desnuda perante o nosso olhar (...)” Panoramas, nostalgias, banzos literários dentro de óticas humanistas: “...O verbo unindo horizontes/Com as cinzas ergueu pontes/De constante renascença” (pg. 57). Soberano no estúdio de sua alma, amargo ou crítico, ou na inevitável sofrência própria dos seres extremamente lúcidos para esses tempos tenebrosos (a pós-globalizaçao do crime organizado do neoliberalismo como um câncer social em detrimento do chamado humanismo de resultados), segue José-Augusto determinado, consciente e sábio o amigo virtual (lincado nesse mundo pelas infovias da net/web); mas também raro e rico amigo livral (presencial pelas obras portentosas que generosamente nos envia), José-Augusto de Carvalho está cada dia mais profícuo; cada dia melhor nos acabamentos, no auge criacional de sua vida-livro, inclusive com os seus novíssmos e importantes poemas que o retratam altamente produtivo, já que regulamente nos envia por e-mail suas produções e derramas, como um achador residual de se colocar na vida como parte alegre-triste dela, lendo a vida contemporânea, a dolorosa tábua da vida, como um testemunho de sua própria afirmação como ser entre os que se parecem com alguma coisa próxima do Ser (inclusive e principalmente socialmente falando), dando registro sério de sua época, de sua existência como ser humano e como humanista, ainda delatando os contrastes de seu tempo com olhares que estão acima dos campos de lavanda dos sonhos. José-Augusto de Carvalho nasceu em 20/07/37, em Viana do Alentejo, Portugal, tem já outros importantes livros como: Arestas Vivas (1980), Sortilégio (1986), Tempos do Verbo (1990), Vivo e Desnudo (1996), Nós Poesia (2002, como Lizete Abrahão), A Instante Nudez (2005) que tive o prazer de resenhar (um dos melhores livros de poemas que li em minha vida), e agora este seu da “Humana Condição”. Espero (esperamos) que José-Augusto de Carvalho continue com seu tear, na lida, pois o enorme prazer da leitura que nos encanta com trabalhados versos de qualidade, além do acabamento gráfico-editorial o que nos apresenta o trabalho literário de cara e capa, na beleza da obra que se reafirma pelo conteúdo enquanto riqueza lítero-cultural de um poeta na mais bela condição humana de poetar com gabarito e quilate: “As vezes o silêncio esmaga/O tumulto das palavras (Verbo de Pedra, pg 51). O livro é um atual depoimento poético “de homens em tempos sombrios”, para lembrar Hannah Arendt, em Entre o Passado e o Futuro/A Condição Humana.
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BOX
Da Humana Condição
Edium Editores
E-mail: ediumeditores@gmail.com
ISBN: 978-989-8169-01-3
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Silas Correa Leite, Itararé, São Paulo, Brasil
E-mail: poesilas@terra.com.br
Blogues:
www.portas-lapsos.zip,net
www.campodetrigocomcorvos.zip.net
o autor constrói o texto, o poema. é o criador genético da massa criativa de que faz a escritura. o texto é meu, ou seja, do autor. guardo-o. o texto, o poema, permanece anónimo e sem dono porque ninguém o conhece. é um texto, um poema incógnito.
o leitor, com a sua leitura e análise crítica, dá ao texto, ao poema, um pai, um dono. a partir do momento em que o poema se me apresenta para a leitura múltipla, eu tomo posse dele. com a minha arte de conhecer as vias ocultas do poema, ou as vias ocultas de poema para poema. relemo-nos nos poemas que lemos, por isso os possuímos com um sentimento «quase» carnal. o leitor / analista crítico toma posse do poema e deixa de pertencer em exclusividade ao criador. de leitor para leitor o poema é sujeito à multiplicação das metáforas:"sentir, sinta quem lê"[fernando pessoa], e o sentir dispersa-se em cada leitura. o leitor dá vida / vidas ao poema que se transforma como um texto de uma peça de teatro conforme cada encenação.
levo e tomo os poemas como oferta. são meus. a partir deste momento dou-lhes a natureza que quero porque me pertencem mesmo que me disperse ideologicamente do autor dele, fazendo o clinamem ou seja um encobrimento, uma má leitura.
os poemas em questão, os tais que eu tomei como oferta, num sentimento de posse exclusivo são poemas de um autor que já ultrapassou a angústia da influência, essa doença astral dos poetas que se limitam a ser precursores, ou só tem resquícios dela e, não sendo, portanto, um efebo da poesia, é um autor diabolizado. O autor atinge a demonização ao referenciar-se de poema para poema. o percurso é ser ele o precursor dele próprio num movimento autopurgativo. daí o meu gosto de ler estes poemas e tomá-los como meus, fazendo deles a minha própria angústia, angustiando-me com a angústia da escrita do pai dos poemas.
josé félix
ESGOTO A NOSTALGIA
tenho a nostalgia dos lugares vazios
escrevo um verso ao abandono
para o preencher lendo
acabo por ficar
estranho
e vazio
é
aí que cheguei
ao exagero quase cómico
já posso dançar
pedindo mão de dama
para poder lhe colocar a mão
"onde as costas mudam de nome"
e
esgoto a nostalgia com gosto
*.*
I
sei dos dias
o tempo que conheço
neste versos
onde medro
para crescer livre
um verso sem medo!
II
sei dos dias
os cinco dedos
de uma mão cheia
em meia dúzia
de versos
em cada verso versado!
III
sei dos dias
a canção da luz
com as suas cores
nos cambiantes naturais
onde se sentem
as horas do dia a passar!
Assim
#
DIA 143 DUM ANO BISSEXTO
Janeiro+Fevreiro+Março+Abril+Maio
31+29+31+30+21=143
#
O OVO DO POEMA
a água lisa alisa o dia
deixa passar deste
horas em poesia
os versos vêm
poisar ave
põe
O
ovo
dum poema
nascem versos
horas em poesia
deixam passar este
dia que água lisa alisa
Assim
*.*
ACABADO DE PÔR
há quem saiba tudo, eu sei pouco
e nada, quase sempre tenho
de me deitar a adivinhar
ter esta experiência da vida
é experimentá-la
em cada verso poema completo!
Assim__._,_.___
Segunda-feira, Maio 19, 2008
O que é um blogue?
a fuga da língua .6
é na nervura da língua
que o tronco rugoso aquece
procuro-te suave
seiva que vem das papilas
como um corpo descoberto
na oferta pronunciada.
josé félix in a fuga da língua
Sexta-feira, Maio 16, 2008
josé luís peixoto
eu tenho a certeza de que sim;
morro para a maioria das pessoas
e até para os meus amigos de infância
cuja adolescência e vida adulta
colocam na sombra da memória
o nome próprio, atrás do espelho.
uma fisga, uma palavra, uma expressão,
uma frase, as mãos nos bolsos, às vezes vivem-nos
para nos morrerem no segundo seguinte
tal zapping do comando do televisor.
por isso, a vida vale o que querem
que os outros valha;
há mortos com importância nos vivos
e vivos sem a importância dos mortos
a vaguear fantasmas e fantasias nas paredes das casas.
eu tenho a certeza de que não vivo
para a maioria das pessoas
e até os meus amigos de infância
quando me vivem
sou a sombra da morte crescida
no meio do autoclismo urbano.
os outros, os inimigos,
são uma invenção das circunstâncias.
dizer sim é tão fácil como dizer não.
josé félix
2008.5.16
[1] in revista "visão" de 2008.5.15
Quinta-feira, Maio 15, 2008
O país duplicado
a fuga da língua .5
é plácida e ilúcida
a serpente da palavra
na pele sete vezes renovada
vêm cânticos de futuro
procuro-te como guilgamesh
ó som imortal perdido
no eco profundo do poço.
morre-te! vive-te!
josé félix in a fuga da língua
Quarta-feira, Maio 14, 2008
no ombro a dor de uma palavra
suporta-se como a lavra
inculta ou a seara seca
onde a semente que peca
germina ao sabor da água
a seiva que vem da língua.
josé félix in a fuga da língua
Terça-feira, Maio 13, 2008

O autor e a obra serão apresentados pelo poeta Xavier Zarco.
Segunda-feira, Maio 12, 2008

A unidade em poesia
É difícil de encontrar unidade num livro de poemas. Do que tenho lido e do que tenho visto em muitos autores, principalmente nas últimas publicações, o que eu vejo é uma série de poemas dispersos com um título. Ora, se o título é importante, de nada vale se não houver unidade nos poemas. O título é uma extensão desse fio condutor que os poemas devem ter.
A poesia é a arte maior da escrita e, como tal, é urgente aprimorar a estrutura poética e o disurso poético no livro de poemas.
Por isso é com muita alegria que leio "Portograal" de Joaquim Fernando Fonseca editado pela Edium Ediores , e que encerra os ingredientes necessários: unidade, um fio condutor entre as três divisões do livro, um todo poético cuja pérola é o Quinto Império tão caro a Pessoa e a António Vieira, o padre. Uma viagem pela escrita minimalista onde ecoam as quadras populares, aqui sempre livres, e da recordação delas, a rima. A partida, a preparação da viagem e, enfim, a revelação alquímica no graal, onde o orvalho de maio é uma escrita sóbria mas com a substãncia necessária para prender o leitor a saborear cada poema, pensando em cada ideia intrínseca.
É um livro pretencioso, por que não dizê-lo, na medida em que transmite a essência de ser português, o gosto pela água, líquido primordial que faz de cada um de nós um permanente viajante a plantar a língua nos quatro cantos do planeta.
Parabéns ao autor por esta peça bem construída, com cabeça, tronco e membros, e que nos dá uma história da História de Portugal. O livro, prublicado nos finais de 2006, apesar da data, não é um livrio datado. Ler-se-à, sempre, em qualquer época.
"Descobrir Mundos Nunca menos
Querer partir sem poder voltar
E permanecer fiel Permancecer eterno
À alma À vida e ao Mar"
in Partida, de Portograal
"O mar não é repetitivo
Até podia ser Mas não
Repetitiva é a ondulação"
in Viagem, de Portograal
"Partir E tendo partido
Navegar E navegando Descobrir
Ter sido a mão de deus O Mar
E chegar
E tendo chegado Encontrar
Cravada no Graal A nova Excalibur"
in A Revelação, de Portograal
José Félix
O humor tosco de "Os contemporâneos"
partiste. deixaste um som
na campânula da água
onde um pássaro poisou.
uma palavra de vento
foi o manto que cobriu
a boca; o anúncio de espanto.
josé félix in a fuga da língua